domingo, 19 de abril de 2015
Como é doce teu sorrir, tua meiguice, tua beleza. Como é bom existir e tê-la tão perto, ouvir a pureza da tua voz, sentir o encanto da tua presença apaziguar meus tormentos, ver a luz que emana teu olhar infantil dissipar minhas escuridões, Como é maravilhoso perceber teu crescer e o descobrir do mundo que te rodeias, Cresces 'criançando' e cativando cada dia mais os corações daqueles que tanto te amam, como o meu. Ingenua doce e bela flor, te amarei, te protegerei sempre e lutarei pelos teus direitos pela tua felicidade minha querida netinha.
sábado, 20 de agosto de 2011
sexta-feira, 24 de junho de 2011
MINHA MULHER, A SOLIDÃO.
Minha mulher, a solidão,
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é o coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só - veste de seda -,
E fala só - leque animado.
Fernando Pessoa, 27-8-1930
Consegue que eu não seja triste.
Ah, que bom é o coração
Ter este bem que não existe!
Recolho a não ouvir ninguém,
Não sofro o insulto de um carinho
E falo alto sem que haja alguém:
Nascem-me os versos do caminho.
Senhor, se há bem que o céu conceda
Submisso à opressão do Fado,
Dá-me eu ser só - veste de seda -,
E fala só - leque animado.
Fernando Pessoa, 27-8-1930
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Te amo minha neta!
Minhas contradições, meus sufocantes estados depressivos, minhas raivas sem sentido do mundo, até parecem que deixaram de existir. Hoje vivo uma paz incomum, algo maravilhosamente novo mora em mim, algo inusitado e profundo como a força de um amor imenso, intenso e verdadeiro. Esse amor novo, essa chama imensurável que me move, que me domina, que me induz a sorrir, que me impele a viver, que grita para mim uma felicidade nova é de uma força radiante e se chama Juliana.
Posso sem medo de errar, dizer que Juliana é um anjo enviado por Deus para apaziguar minha alma, e veio trazendo a paz naquele seu sorrisinho ligeiro e cativante, naquele corpinho miúdo e indefeso, naquelas rápidas olhadelas lutando contra o sono e contra a claridade perturbadora desse mundo. Com mãozinhas pequeninas, inquietas e suaves, ela afaga meu coração como se o único propósito de existirem fossem esse. Finíssimos cabelinhos enfeitam sua cabecinha que parece ter sido esculpida por um mestre da arte e onde estão um lindo narizinho, olhos de um brilho incomum, uma par de bochechas rosadinhas e uma boquinha milimetricamente perfeita.
Esse anjo de perfeição, veste roupinhas bem maiores que seu pouco tamanho. Agasalhada como se fosse de brinquedo, aquela bonequinha dorme sob os olhares protetores e amáveis de todos os incansáveis admiradores daquela que é uma benção de Deus.
Entre alguns resmungos infantis, alguns soluços e pouquíssimos instantes de pranto, a pequenina luz, irradia paz e amor daquele berço imenso para o exterior do seu quartinho pintado com esmero, para logo em seguida despertar desejando saciar no seio de sua mãe dedicada mais e mais vida.
É, esse serzinho de luz me mudou por dentro, como se fora um furacão de bondade, de felicidade e paz. Quebrou meus muros, destruiu a redoma que ergui para fugir do mundo e das pessoas, me humanizou, me inundou de uma vontade imensa de viver, para vê-la crescer e ser feliz, para participar e me tornar importante para ela.
Outro dia um amigo perguntou-me: Como é ser avô?
Eu disse-lhe sem pestanejar que não sabia ainda, só posso lhe dizer que a denominação avô, é tão pequena quanto sua própria grafia para definir o sentimento avô.
Aceito com orgulho que aquele ser pequenino, com toda a sua pequeninice, com toda sua candura, com todo seu indefesso jeitinho tenha trazido para mim uma denominação nova, além de pai, agora, avô. Mas ela não trouxe-me apenas isso, ela trouxe-me sim a felicidade, a verdadeira felicidade.
Por qual caminho o destino guiará nossos dias eu não sei, só sei que seja qual for, quero mais do que tudo de agora em diante, estar sempre do lado daquela pequenina criatura, para amá-la com toda a força que meu coração de pai-avô puder e lutarei todas as batalhas para que ela tenha todo o direito a vida, a paz e a felicidade.
Te amo Juliana, te amo mais que amo a mim mesmo. Te amo não por te amar apenas, como se não me restasse mas nada a fazer na vida, te amo por gratidão, te amo por felicidade, te amo não por ter me trazido apenas uma denominação nova, avô! Te amo por ter me presenteado com o sentimento avô.
Deixa Juliana, deixa eu sentar no chão com você para brincar de casinha, deixa eu te levar e te pegar na escola, não posso ser os remédios que te curarão das doenças da infância, mas com certeza serei o que estará pedindo a Deus mais alto por tua cura rápida, e em tua festa de quinze anos, eu, já bem velhinho, te olharei com orgulho e lembrarei cada instante de tua infância nos meus braços e em teus abraços estarão com certeza os melhores momentos de minha vida.
Te amo pequenina Juliana!
Te amo!
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Quem sou eu?
Quem sou eu? Não queiram saber quem sou eu, afinal, nem tenho tanta importância assim, em vez de lhes contar quem sou, com toda a minha desimportância, prefiro e com muito orgulho lhes dizer quem é Juliana.
Deus, com toda sua infinita misericórdia me presenteou com verdadeiras dádivas, a primeira foi minha filha Raphaella. Uma dessas pessoas cuja sabedoria foi e ainda vem sendo captada do mundo com sua incrível percepção silenciosa, conseguindo assim aprender observando e ouvindo, e em seguida Deus me deu Varley, meu filho querido. Varley ou Varlinho para os amigos, é uma dessas pessoas que encantam por um incrível jeito carinhoso, amigo e verdadeiro de ser. Apesar de seus vinte e poucos anos, ele cativa com uma pureza incomum aos adultos. Agora, quero lhes falar de Juliana, a terceira dádiva de Deus em minha vida.
Juliana é um ser pequenino, coisinha pouca, mirradinha, recém-nascida, uma verdadeira estrelinha que como se fosse do nada, apareceu brilhando no céu da minha vida, das nossas vidas. E veio com um brilho ingenuamente puro, imensuravelmente belo, infinitamente cativante, que inundou a todos, como se fosse um sol de uma bela manhã, enchendo de luz, calor e gritando para quem puder ouvir, sobre o milagre da vida.
Quase que perdidinha em um berço enorme, agasalhada em roupinhas que expõem seu pouco tamanho, ela dorme com uma fisionomia de anjo, mãozinhas enluvadas, minúsculas orelinhas recém furadas para que um par de miúdos brincos tentem o impossível, torná-la ainda mais bela do que é (coisas de mulher). De quando em quando ela acorda, sempre esfomeada, suga com vontade o seio da sua mãe, para logo em seguida voltar a dormir no berço enorme.
A imensa perfeição desse serzinho, amoleceu tanto meu coração, que tenho a sensação que renasci com ela. Ontem, tomei-lhe aos braços, e senti como é leve a felicidade.
Dia desses meu querido filho, casado, voou, foi com sua esposa constituir um lar, coisa tão natural para todo casal. Naquele dia senti como é difícil ser pai e desde então, me tem pesado tanto a paternidade. É uma tal saudade que dói, como uma faca fincada no peito, dor que aumenta mais e mais quando pego sua mãe, minha querida Iracema em prantos, sentindo a mesma dor.
Como se fosse possível fugir dessa maldita dor, agente anda inconscientemente buscando se focar no brilho intenso da pequenina Juliana e na maior parte do tempo, entre um sorriso dela, uma mamada, um banho, uma troca de fraldas a dor até parece diminuir, para logo em seguida voltar com força, então, a saudade mina por nossos olhos.
É estranho e egoísta esse nosso sentir, afinal, fizemos o mesmo com nossos pais. Eles também sentiram essa mesma dor quando eu e Iracema resolvemos também ter nosso lar. Mas como convencer aos nossos corações de mãe e pai que nosso filho amado só fez mudar de endereço e estar logo ali, bem ao alcance de uma ligação e da internet?
Bom, o fato é que de quando em quando, agente se pega, com os olhos minados e uma enorme faca fincada no peito.
É, é muito difícil mesmo ser pai e mãe!
Por falar em saudade, deixem eu voltar para a Juliana.
Amigos e familiares dizem a todo instante que estou babando ao admirar toda aquela bela, pura e indefesa criaturinha.
Bobos! Claro que estou babando! Quem não babaria ante um ser tão belo e puro?
Posso estar parecendo piegas, cheio de clichês ultrapassados, falando coisas que só um verdadeiro bobão falaria ao admirar sem medidas alguém, como fazem os idolatras com seus fanatismos e os fãs sem senso crítico. Se alguém assim pensa, é porque nunca viveu o que estou vivendo ante essa criaturinha, que com toda sua pequeninice está encantando a todos.
Hoje, meus olhos vazaram bem mais do que vinham vazando, é que um terrível pensamento se abateu sobre mim. E como um vento forte que tudo arrasa, pensei no dia que Raphaella e seu marido forem também constituírem um lar, levando consigo minha pequenina Juliana, desde então estou arrasado, até parece que a faca fincada em meu peito foi sendo movida pela força desse vento ruim, e me rasgou por dentro.
...
Eu sei que corremos esse risco, e por isso decidi dedicar meus dias a curtir minha filha e nossa pequenina Juliana. Por isso não vejo a hora de sentar no chão para brincar com ela de bonecas, de escolinha, passear, levá-la e buscá-la do colégio e curtir ao máximo sua meninice como fiz com Raphaella e com Varlinho.
Queira Deus que eu viva o suficiente para vê-la crescer e que Deus me permita moldá-la e ensiná-la a ser uma pessoa de bem e cheia de virtudes como são sua mãe e seu tio.
Sabe, pensando bem eu tenho sim muita importância, afinal, eu sou pai da Raphaella, do Varlinho e avô da Juliana. A presença desse três seres de luz na minha vida me dizem que sou importante, afinal, porque Deus me daria essas três dádivas se eu não tivesse alguma importância nessa vida?
Varley Farias
sábado, 25 de dezembro de 2010
Mais um natal.
Mais um natal e eu com meu quase ateísmo convicto não posso deixar de ver mais uma vez nessa época, que a imagem do bom velhinho tem mais força do que da criança inerte na manjedoura, e lendo essa semana que no Japão, menos de um por cento das pessoas são cristãs, e que bem mais de noventa por cento do país comercializa o natal, vive o natal, se enfeita de natal, confirmei minha suspeita de que o real sentido da época é puramente comercial em qualquer lugar que se esteja.
Há um presépio de cristal, ouro e diamantes armado na sala do magnata, há um presépio de gesso desejado na casa do trabalhador, há um presépio de fumaça embaçando a vida do viciado nas esquinas, tantos presépios e pouquíssimos simbolizando nascimento, quase nenhum vende a imagem de vida, de renascimento, de fé.
Muitas casas, poucas moradas, muitos ritos pouca fé, muitos vendilhões nos templos da credulidade, comercializando a opulência, incentivando o ter em detrimento do ser.
Como quase ateu convicto me pergunto constantemente nessa época de pisca-piscas, trenós e renas, onde fica o filho de Deus depois da troca de presentes?
Onde ele se senta na mesa farta da ceia na noite santificada e nas demais noites do ano?
E quanto tempo levará para que suas primeiras palavras consigam chegar aos ouvidos dos embriagados na noite de festa?
Logo é ano novo e mais perguntas me veem, como o piscar incessante de luzes na árvore de plástico do meu quase ateísmo convicto.
Quantos filhos de Deus não chegarão sequer a deitar na manjedoura ao terem suas vidas ceifadas por alguma droga, somente porque o divino espírito santo da vez, não quis assumir a paternidade temida?
Quantos filhos de Deus não conseguirão chegar aos trinta e três anos de vida, porque um vício qualquer os fez esmaecerem-se no ar, misturados a uma fumaça alucinante?
Quantos filhos de Deus perderão suas vidas pelas calçadas ou mesmo nos seus próprios lares quando um projétil qualquer, for batizado de bala perdida?
Quantos e quantos filhos de Deus vestirão paletó, engravatarão seus colarinhos brancos e optando pelo lado de Judas, beijando rostos, trairão, enganarão e matarão seus crédulos irmãos?
E quantos bilhões conseguirá a figura do Santa Claus vender, nesse mundo cada vez mais capitalista, enquanto tantos filhos de Deus alimentam-se de terra e excremento nos confins onde a mídia alcança e cala, porque o que da retorno financeiro é a opulência da mesa farta dos natais?
Mas, voltando ao pequenino da manjedoura e se a ele associássemos um produto qualquer, logo ele faria páreo ao obeso velhinho vestido de rubro e em outros natais veríamos crianças recém nascidas sendo patrocinadas por empresas, deitadas em berços exibindo logomarcas nos corredores dos shoppings centers e nas salas de todos os lares.
O natal de hoje é traduzido também na reunião de pessoas que se amam ou pelo menos se toleram, e que encharcadas de falsas alegrias engarrafadas, não conseguem ouvir o balbuciar das primeiras palavras do recém-nascido, que diz ingenuamente “ama a teu próximo assim como eu vos amo”.
Mas não foram os natais que acenderam meu quase ateísmo convicto, da mesma forma que não foi o papai Noel que matou a criança da manjedoura, os grandes culpados são os excessos de fé e a falta dela, o ter superando o ser, o que me vendeu o pacote ateísta, foi ver uma “Maria” enterrando vivo o seu “Jesus”, foi ver um “Jesus” sentado na sarjeta segurando um cachimbo feito de lata enquanto uma família era levada pela fumaça da queima de uma pedra maldita.
O que alimenta o meu quase convicto ateísmo, é perceber que os Judas ainda sentam à mesma mesa graças ao perdão que lhe foi dado pelo “Jesus” que lhe ofertou o pão, e que ainda vivem os Judas.
Demo-nos presentes, festejemos o nascimento, mas ouçamos e deixemos que façam algum sentido em nós às palavras do menino Jesus.
Varley
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
Há um presépio de cristal, ouro e diamantes armado na sala do magnata, há um presépio de gesso desejado na casa do trabalhador, há um presépio de fumaça embaçando a vida do viciado nas esquinas, tantos presépios e pouquíssimos simbolizando nascimento, quase nenhum vende a imagem de vida, de renascimento, de fé.
Muitas casas, poucas moradas, muitos ritos pouca fé, muitos vendilhões nos templos da credulidade, comercializando a opulência, incentivando o ter em detrimento do ser.
Como quase ateu convicto me pergunto constantemente nessa época de pisca-piscas, trenós e renas, onde fica o filho de Deus depois da troca de presentes?
Onde ele se senta na mesa farta da ceia na noite santificada e nas demais noites do ano?
E quanto tempo levará para que suas primeiras palavras consigam chegar aos ouvidos dos embriagados na noite de festa?
Logo é ano novo e mais perguntas me veem, como o piscar incessante de luzes na árvore de plástico do meu quase ateísmo convicto.
Quantos filhos de Deus não chegarão sequer a deitar na manjedoura ao terem suas vidas ceifadas por alguma droga, somente porque o divino espírito santo da vez, não quis assumir a paternidade temida?
Quantos filhos de Deus não conseguirão chegar aos trinta e três anos de vida, porque um vício qualquer os fez esmaecerem-se no ar, misturados a uma fumaça alucinante?
Quantos filhos de Deus perderão suas vidas pelas calçadas ou mesmo nos seus próprios lares quando um projétil qualquer, for batizado de bala perdida?
Quantos e quantos filhos de Deus vestirão paletó, engravatarão seus colarinhos brancos e optando pelo lado de Judas, beijando rostos, trairão, enganarão e matarão seus crédulos irmãos?
E quantos bilhões conseguirá a figura do Santa Claus vender, nesse mundo cada vez mais capitalista, enquanto tantos filhos de Deus alimentam-se de terra e excremento nos confins onde a mídia alcança e cala, porque o que da retorno financeiro é a opulência da mesa farta dos natais?
Mas, voltando ao pequenino da manjedoura e se a ele associássemos um produto qualquer, logo ele faria páreo ao obeso velhinho vestido de rubro e em outros natais veríamos crianças recém nascidas sendo patrocinadas por empresas, deitadas em berços exibindo logomarcas nos corredores dos shoppings centers e nas salas de todos os lares.
O natal de hoje é traduzido também na reunião de pessoas que se amam ou pelo menos se toleram, e que encharcadas de falsas alegrias engarrafadas, não conseguem ouvir o balbuciar das primeiras palavras do recém-nascido, que diz ingenuamente “ama a teu próximo assim como eu vos amo”.
Mas não foram os natais que acenderam meu quase ateísmo convicto, da mesma forma que não foi o papai Noel que matou a criança da manjedoura, os grandes culpados são os excessos de fé e a falta dela, o ter superando o ser, o que me vendeu o pacote ateísta, foi ver uma “Maria” enterrando vivo o seu “Jesus”, foi ver um “Jesus” sentado na sarjeta segurando um cachimbo feito de lata enquanto uma família era levada pela fumaça da queima de uma pedra maldita.
O que alimenta o meu quase convicto ateísmo, é perceber que os Judas ainda sentam à mesma mesa graças ao perdão que lhe foi dado pelo “Jesus” que lhe ofertou o pão, e que ainda vivem os Judas.
Demo-nos presentes, festejemos o nascimento, mas ouçamos e deixemos que façam algum sentido em nós às palavras do menino Jesus.
Varley
Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
Conto: Profanação - José Maria Moreira Campos
A cidade repousava na paz dormente da tarde. Redemoinhos. Carneiros que ruminavam à sombra da igreja. Outros animais pastavam na praça principal, que o mato ia farto naquele fim de águas. De repente, o relincho do jumento cortou o espaço, vibrante, sincopado, sacudindo concentrações. Jumento só relincha em hora certa. À larga sombra do oitão na casa da esquina, Seu Manduca, farmacêutico, concluiu o lance no tabuleiro do gamão e consultou o relógio: vinte para as cinco. Inesperado! Um erro qualquer de cálculo. Novo relincho, houve tropel de cascos. Já o jumento se desembainhara: lança em riste, reluzente, sugestão de um bacamarte boca-de-sino. O beiço superior dobrado, em cheiro de sexo ou de cio, um fauno. A jumenta, nova, um mimo de ancas, talvez ainda intocada, atirou-lhe logo uns dois pares de coices na queixada, de que ele se livrava com dignidade e firmeza. Insistiu em mordê-la no pescoço. Novos coices, toda uma beleza de mocidade. Qualquer coisa, pela própria violência e rápidas entregas e negaças, a lembrar a festa necessária do sexo. A arma poderosa erguia-se lenta contra o peito do próprio jumento, como que se acamando, em pancadas repetidas, mola, alavanca para grandes pesos. Perseguia a fêmea, tentou cavalgá-la, escorregou. D. Esmerina, da janela de casa, a vista curta, apertava as pálpebras, num esforço de verificação. Pressentiu coisas. Mandou que a neta entrasse, menina de doze anos. Sinha Terta parou no meio da praça, equilibrando na cabeça a trouxa de roupa, seduzida, esquecida de tudo. No bilhar de Duca, os homens abandonaram o jogo e, do alto da calçada, bateram palmas:
– Eita, cabra macho!
Mais coices. A jumenta apressava o passo em trote gracioso, e o fauno atrás. Ela entrou por uma das portas laterais da igreja, e ele também, o beiço superior mais dobrado que nunca. Quebraram bancos, o velho confessionário foi deslocado. Alexandre Sacristão, que espanava o altar e os santos, ficou com o espanador parado no ar. Padre Rolim tangia os brutos com a batina (porque esta estória é antiga):
– Xô, demônios!
Tudo se consumou na sacristia, perto da grande mesa coberta com a toalha de gorgorão, onde aos domingos se realizavam as conferências da Sociedade São Vicente de Paulo e se pagava o óbolo.
A beata Inacinha assistira à cena por trás da cortina, perplexa e hipnotizada. Seguira detalhes: a penetração profunda, que lhe dera estremecimentos, a contração da fêmea, os movimentos rápidos. A própria Inacinha sentira um dilaceramento íntimo, como se sangrasse, desejo também de entrega:
– Oh!
Todos siderados: Padre Rolim, Inacinha, Alexandre Sacristão, as outras beatas que chegavam. Padre Rolim se recompôs logo e, afinal, tangeu os dois. Já muitos curiosos no oitão da igreja, um deles vindo do bilhar e ainda esfregando o giz na ponteira do taco. Padre Rolim insistia:
– Absurdo!
Virou-se para Alexandre Sacristão.
– De quem é esse jumento?
Alexandre não sabia. A beata Inacinha conhecia o dono da jumenta:
– É Seu Dedé. Lá da beira do rio.
Padre Rolim, desabotoado, abanava-se com a gola da própria batina:
– O que está faltando é um homem na Prefeitura. Irresponsáveis! Um bando de animais soltos!
Mais curiosos que chegavam. Por fim, foram-se afastando. Alexandre Sacristão veio com o chumaço de estopa e o balde de água para a limpeza do piso da sacristia, onde restava a grande sobra de sêmen e de onde subia um cheiro de sexo, que dilatava as narinas, as de Inacinha ainda mais inflamadas.
Padre Rolim decretou que era profanação. Não que fosse preciso interditar a igreja, cerrar portas. Mas pelo menos benzer a sacristia. Apanhou o hissope, aspergiu água benta, disse orações, acompanhado pelas beatas e por Alexandre Sacristão, que terminou por repor no local a grande mesa com toalha de gorgorão, que também fora deslocada.
A notícia correu a cidade: Padre Rolim dissera que tinha havido profanação. Benzera a sacristia. Na porta de casa, Seu Apolinário, lido e surdo, levava a mão em concha à orelha cabeluda, com certa ironia.
– Tinha havido o quê?
– Profanação.
– Ah, sim.
A beata Inacinha sentia agora dificuldade de concentrar-se nas orações. A imagem em tanga de São Sebastião no oratório de casa, as chagas, as setas profundas, o sangue, tudo se confundia com a penetração enérgica, dilacerante, quente, morna. Um verdadeiro demônio, como dissera Padre Rolim, até pelo retesado das patas, quase em pé, os cascos, aquele espeto enorme.
Inacinha voltava às contas do terço.
Na manhã do outro dia, os soldados e os presos de confiança na calçada da cadeia, divertidos, tentavam identificar o jumento, que pastava perto, junto à cerca de arame farpado, de mistura com outros animais. Alguém o apontou. Lá estava ele: moço, inteiro, forte no sopro das narinas. Tosava o mato e erguia a cabeça, altivo, enquanto o rabo tangia varejeiras.
Seu Dedé, lá da beira do rio, já viera recolher a jumenta.
A cidade voltou à tranqüilidade de sempre: à tarde, os carneiros ruminavam à sombra da igreja.(Do livro A Grande Mosca no Copo de Leite (1985), reunido a outros em Obra Completa: Contos II, São Paulo, Editora Maltese, 1996)
Moreira Campos (José Maria), nascido em Senador Pompeu (6 de janeiro de 1914), é filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.
Sua obra está estudada em importantes livros, como o de José Lemos Monteiro, intitulado O Discurso Literário de Moreira Campos, o de Batista de Lima, Moreira Campos: A Escritura da Ordem e da Desordem, e outros mais abrangentes, como Situações da Ficção Brasileira, de Fausto Cunha; 22 Diálogos Sobre o Conto Brasileiro Atual, de Temístocles Linhares; e A Força da Ficção, de Hélio Pólvora. Em jornais e revistas se estamparam quase uma centena de artigos e ensaios sobre os seus livros.
Temístocles Linhares classifica o contista de Portas Fechadas de “um de nossos maiores contistas atuais”. E comenta: “Lê-lo, para mim, é reviver, em certos aspectos, transpostos para o ambiente de seu Ceará, os velhos mestres do naturalismo. Como eles, o autor também desconfia das grandes palavras e dos grandes gestos, preferindo tentar substituir os julgamentos de valor pelos julgamentos de existência”.
Assis Brasil escreveu: “Moreira Campos faz, no Ceará, a ligação entre o conto de história, ainda vigente nos primeiros anos do Modernismo, e o conto de flagrante, sugestivo, que as novas gerações, a partir de 1956, desenvolveriam em muitos aspectos criativos”.
Hélio Pólvora opina: Moreira Campos, “embora não sendo um tchekhoviano perfeito, dele (Tchekhov) se aproxima quando livra o conto de uma sobrecarga excessiva e procura atingir logo o alvo, localizar logo o nervo exposto”. E acrescenta: “Moreira Campos seleciona e filtra fatos que às vezes se resumem a instantes, e nesse processo informa ou sugere o conflito vivido pela personagem, mostrando, afinal, o que ela faz para resolver o conflito ou sucumbir”.
Segundo Herman Lima, no ensaio citado na primeira parte, Moreira Campos: (...) “é um mestre do conto moderno, desde o aparecimento do seu primeiro livro, Vidas Marginais (1949), no qual há pelo menos uma obra-prima do conto universal desta hora, “Lama e Folhas”. Diz mais: “As pequenas ou grandes tragédias, as comédias ocultas do cotidiano burguês, fixadas por ele, ganham, em sua mão experiente, uma especificidade que o aproxima dos maiores nomes do conto psicológico de todos os tempos, de Machado de Assis para cá, inclusive e principalmente Tchecov, de sua íntima e fiel convivência, ou, mais perto de nós, de um Joyce dos Dubliners ou um Sherwood Anderson, de Winesburg Ohio”.
Montenegro argumenta: “Moreira Campos será talvez não apenas o contista de maior projeção nas letras cearenses contemporâneas, porém, ainda, juntamente com Osman Lins, Dalton Trevisan e poucos outros, terá ele realizado o que de mais significativo existe no conto moderno brasileiro”.
Sânzio de Azevedo, principalmente no ensaio “Moreira Campos e a Arte do Conto” (Novos Ensaios de Literatura Cearense) faz algumas observações: “Na linhagem de Machado de Assis e por conseguinte na de Tchecov é que se entronca a obra ficcional de Moreira Campos” (...). Segunda: “apesar de haver optado pela narrativa sintética, extremamente despojada, com que tem enriquecido a nossa literatura através de não poucas obras-primas, não renegou os longos contos de seu primeiro livro” (...). Terceira observação: “Em Moreira Campos o que mais importa são os dramas da alma humana, e não a presença da terra, ostensivamente retratada nas páginas de Afonso Arinos e Gustavo Barroso”.
Batista de Lima, no ensaio mencionado linhas atrás, fala da corrosão física dos personagens, dos agentes dessa corrosão, dos defeitos congênitos, da decrepitude, da doença e da morte. A seguir analisa o oposto disso, ou seja, a ordem: “A nova ordem começa a ser instaurada no momento em que o narrador doma a morte, colocando-a no convívio familiar dos personagens.” E, passando da ordem narrada para a ordem vocabular, constata a constante evolução da arte do contista.
Em “As Características da Escritura de Moreira Campos” (O Fio e a Meada: Ensaios de Literatura Cearense, págs. 155/158), Batista é de opinião que o contista “transita com mestria entre momentos impressionistas, neo-realistas e neonaturalistas, sempre conservando uma estrutura linear para suas narrativas, com princípio, meio e fim bem delineados.” Especifica: “As principais características da narrativa de Moreira Campos são: uma tendência para o uso de elementos descritivos em paralelo aos narrativos; os vazios deixados para serem preenchidos pelo leitor; a eliminação de comentários e interpretações paralelas; a quase ausência de diálogos; a atuação do tempo como elemento corrosivo sobre os personagens; o uso das repetições como forma de superação das dificuldades de relacionamento entre as diferentes classes de pessoas; a ironia; a luta pela concisão.”
José Alcides Pinto, em “Um Mundo de Coisas Miúdas” (Política da Arte–II, págs. 51/52), observa: “Moreira Campos, obstinado em sua procura do novo, do mundo brilhante das coisas obscuras, melhor direi de “vidas marginais”, reapanha, com O Puxador de Terço, o início de sua carreira literária, que ele torna cíclica num processo, quase mágico de depuração estilística”. Em “Moreira Campos e a Nova Ficção Brasileira” (PA-I), ao comentar Os Doze Parafusos, afirma: (...) “abrem um novo caminho na ficção de Moreira Campos, já esboçada sob o ponto de vista erótico em outras obras, mas sem a liberdade de como os assuntos são agora tratados, vistos de frente, com um realismo mágico e epidérmico, que se inscreve, com muita propriedade, no fescenino, num clima de autonomia individual e sem o prejuízo de uma linguagem estética – função inequívoca a toda obra de arte”.
Francisco Carvalho, em “A Transparência Formal na Ficção de Moreira Campos” (EL, págs. 124/127), vê nas peças ficcionais de A Grande Mosca no Copo de Leite que “em todas elas a excelência do artesanato literário destaca-se por uma rigorosa economia de palavras e por uma extraordinária transparência formal”. E mais adiante: “A prosa enxuta, a frase carregada de sentido, a noção de ritmo e de musicalidade, o poder de síntese, o rigor no emprego da palavra, a densidade psicológica e a expressividade – são esses alguns dos aspectos que se articulam no contexto ficcional do novo livro de Moreira Campos”. Em “Contos Escolhidos” (Textos e Contextos), analisa a evolução do contista: “Os contos da primeira fase, elaborados sem qualquer preocupação de fidelidade aos paradigmas da chamada “história curta”, já se apresentam numa evidente perspectiva de modernidade”. E mais adiante: “Já nos contos da segunda fase, Moreira Campos persegue obstinadamente os horizontes da síntese, da pura essencialidade”.
(Do livro Panorama do Conto Cearense, de Nilto Maciel)
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Crônica – A violência virou rotina
Nasci numa cidade do interior do Ceará,
localizada no Sertão dos Inhamuns, 51 anos atrás, onde passei minha meninice
brincando nas ruas, tomando banho de rio, convivendo com a paz que toda cidade
do interior tinha. Lembro que naquelas ruas, a única violência que se via, era
o correr desenfreado da cachorrada quando algum gato mais atrevido ou
desavisado invadia o território dos cães. E a meninada se divertia vendo aquele
corre-corre. Naquele tempo os cães não se davam com os gatos. Afora essa “violência”,
nessa época não se ouvia falar em qualquer outra.
Varley

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As
calçadas estavam sempre apinhadas de famílias jogando conversa fora até altas
horas, e naquelas ruas a meninada crescia lentamente. Lembro que depois de
exaustos das brincadeiras, nossa mãe nos mandava tomar banho se aquietar e
esperar o sono chegar. E lá íamos cumprir a determinação. Banhados, livres da
poeira de um dia de muito suor e diversão, voltávamos à calçada, sentávamos no
colo dela e recebíamos dela e da noite os carinhos que nos amoleciam o corpo e
alma, e em poucos minutos éramos levados pelo sono, bem ali mesmo na calçada
nos braços da nossa mãe, adormecíamos.
Hoje, vivo numa metrópole com seus quase três milhões de habitantes, Aqui, na terra da luz – como é conhecida
Fortaleza – durante o dia os automóveis mandam também nas calçadas e durante as
noites nas calçadas vazias, se percebe o medo vagando e onde a presença dos
muros altos enfeitados com cercas eletrificadas, vidros ou pontiagudos grampos
enferrujados, feios enfeites do medo calam a alegria e a vida. Muros que dão a
falsa impressão de protegerem a infância desses dias tão violentos.
Os
gatos já não temem os cães como outrora, é comum vê-los dormindo lado a lado e
até comendo no mesmo prato um do outro. Hoje, o cidadão de bem é que tenta
fugir e se proteger dos “cães” das ruas, querendo se esquivar da violência que
as drogas e os outros vícios trazem.
Vez por outra tenho noticias da minha cidade, e elas me são tão preocupantes
com relação a violência, como as noticias do cotidiano na metrópole despojada
pelo sol.
A violência virou rotina de fato. Instalou-se no nosso dia a dia como praga
abominável, e o terrorismo das ruas vai fazendo vitimas e mais vítimas, que
muitas vezes sequer chegam a ter infância. E quando não somos surpreendidos por
ela nas esquinas, nos sinais, na fila de um banco, ela vem a nossa procura,
seqüestrar a paz do nosso lar.
...Tenho
muita saudade do tempo em que os gatos temiam os cães.
Varley

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quarta-feira, 28 de julho de 2010
O amor que você nunca me deu
Fiz com que os livros preenchessem
O vazio que sua ausência me deixou
Agora me leio fugindo da saudade
Nas páginas que escreveu teu desamor
Você que só quis me usar
E sugar com mentiras minha paz
Quase me fez perder a vida
Algo que do teu lado eu não teria jamais
No fundo te agradeço
Por toda a dor que você me causou
Pois serviu para eu aprender
A não me entregar a um falso amor
Já não nos falamos como antes
O que se passou entre nós agora cala
E em breve nem mais emails
Irão levar nossa fala
Não direi mais que a amo
Porque você nunca de fato mereceu
Dê seu amor a qualquer outro
Esse mesmo amor que você nunca me deu
Varley

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Varley

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terça-feira, 27 de julho de 2010
ADORMECIDA - Castro Alves
Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço no tapete rente.
'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face, trêmulos, beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago,
Mesmo em sonhos, a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despertada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."
Ilustração: estátua de Castro Alves, Salvador, Bahia. Foto retirada do Flickr, de E. Cesar.
No período em que viveu (1847-1871), ainda existia a escravidão no Brasil. O jovem baiano, simpático e gentil, apesar de possuir gosto sofisticado para roupas e de levar uma vida relativamente confortável, foi capaz de compreender as dificuldades dos negros escravizados.
Manifestou toda sua sensibilidade escrevendo versos de protesto contra a situação a qual os negros eram submetidos. Este seu estilo contestador o tornou conhecido como o “Poeta dos Escravos”.
Aos 21 anos de idade, mostrou toda sua coragem ao recitar, durante uma comemoração cívica, o “Navio Negreiro”. A contra gosto, os fazendeiros ouviram-no clamar versos que denunciavam os maus tratos aos quais os negros eram submetidos.
Além de poesia de caráter social, este grande escritor também escreveu versos líricos-amorosos, de acordo com o estilo de Vítor Hugo. Pode-se dizer que Castro Alves foi um poeta de transição entre o Romantismo e o Parnasianismo.
Este notável escritor morreu ainda jovem, antes mesmo de terminar o curso de Direito que iniciara, pois, vinha sofrendo de tuberculose desde os seus 16 anos.
Apesar de ter vivido tão pouco, este artista notável deixou livros e poemas significativos.
sábado, 24 de julho de 2010
A árvore de Natal na casa de Cristo - Conto de Fiodor Dostoievski
Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se esvolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. “Faz muito frio aqui”, refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.
Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães,às centenas e aos milhares,uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer… ao passo que ali… Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens… e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada;toda gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.
Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe – nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas dessa vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto de e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar – de verdade – e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. “Aqui, pelo menos”, refletiu ele, “não me acharão: está muito escuro.”
Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! “mais um instante e irei ver outra vez os bonecos”, pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: “Podia jurar que eram vivos!”… E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. “Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!”
- Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino – murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.
Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e… logo… Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos – mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorrir com ar feliz.
- Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! – exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça… – Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? – pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.
- Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe. – Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra…
E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães… E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali…
E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe… Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus. “
Estudou a contragosto em uma escola militar de Engenharia, época em que começou a ler as obras dos grandes escritores de sua época.
Aos 17 anos, Dostoievski teve sua primeira crise de epilepsia, após saber que seu pai fora assassinado pelos colonos da propriedade rural da família, em razão de vingança por maus-tratos supostamente sofridos. A doença o acompanharia durante toda a vida.
Aos 22 anos Dostoievski deixou o exército para dedicar-se à literatura. Em 1849 envolveu-se com um grupo socilaista revolucionário e, após uma denúncia, foi preso e condenado à morte por fuzilamento. No entanto, sua pena foi atenuada no útltimo momento e a sentença foi no sentido de que cumprisse trabalhos forçados na Sibéria.
O autor passou muitos anos preso e prestando serviços como soldado raso e nesse período escreveu o romance Recordações da Casa dos Mortos.
As crises de epilepsia e a leitura da bíblia na fase de reclusão tiveram essencial relevância para a sua conversão ao cristianismo.
Eu desejaria
Se eu pudesse transformar em vida um
segundo apenas meu desejo,
você saberia a falta que me faz.
Eu desejaria tua boca
e teus beijos
os mesmo que não tenho mais
Eu desejaria teu corpo
e teu calor
e não te perderia jamais
Eu desejaria tua alma
teu coração e toda a ilusão
que eu for capaz
Eu desejaria enfim
teus desejos em mim
trazendo-me a paz
Varley

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segundo apenas meu desejo,
você saberia a falta que me faz.
Eu desejaria tua boca
e teus beijos
os mesmo que não tenho mais
Eu desejaria teu corpo
e teu calor
e não te perderia jamais
Eu desejaria tua alma
teu coração e toda a ilusão
que eu for capaz
Eu desejaria enfim
teus desejos em mim
trazendo-me a paz
Varley

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sexta-feira, 23 de julho de 2010
A menina sem palavra - Conto de Mia Couto
A menina não palavreava. Nenhuma vogal lhe saía, seus lábios se ocupavam só em sons que não somavam dois nem quatro. Era uma língua só dela, um dialecto pessoal e intransmixível? Por muito que se aplicassem, os pais não conseguiam percepção da menina. Quando lembrava as palavras ela esquecia o pensamento. Quando construía o raciocínio perdia o idioma. Não é que fosse muda. Falava em língua que nem há nesta actual humanidade. Havia quem pensasse que ela cantasse. Que se diga, sua voz era bela de encantar. Mesmo sem entender nada as pessoas ficavam presas na entonação. E era tão tocante que havia sempre quem chorasse.
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
- “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
- “Mar”...
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
- “Venha, minha filha!”
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
- “Vamos f lha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
- “Pai!”
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
- “Agora, é que nunca”.
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
- “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”...
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
- “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”
E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.
*
Seu pai muito lhe dedicava afeição e aflição. Uma noite lhe apertou as mãozinhas e implorou, certo que falava sozinho:
- “Fala comigo, filha!”
Os olhos dele deslizaram. A menina beijou a lágrima. Gostoseou aquela água salgada e disse:
- “Mar”...
O pai espantou-se de boca e orelha. Ela falara? Deu um pulo e sacudiu os ombros da filha. “Vês, tu falas, ela fala, ela fala!” Gritava para que se ouvisse. “Disse mar, ela disse mar”, repetia o pai pelos aposentos. Acorreram os familiares e se debruçaram sobre ela. Mas mais nenhum som entendível se anunciou.
O pai não se conformou. Pensou e repensou e elabolou um plano. Levou a filha para onde havia mar e mar depois do mar. Se havia sido a única palavra que ela articulara em toda a sua vida seria, então, no mar que se descortinaria a razão da inabilidade.
A menina chegou àquela azulação e seu peito se definhou. Sentou-se na areia, joelhos interferindo na paisagem. E lágrimas interferindo nos joelhos. O mundo que ela pretendera infinito era, afinal, pequeno? Ali ficou simulando pedra, sem som nem tom. O pai pedia que ela voltasse, era preciso regressarem, o mar subia em ameaça.
- “Venha, minha filha!”
Mas a miúda estava tão imóvel que nem se dizia parada. Parecia a águia que nem sobe nem desce: simplesmente, se perde do chão. Toda a terra entra no olho da águia. E a retina da ave se converte no mais vasto céu. O pai se admirava, feito tonto: por que razão minha filha me faz recordar a águia?
- “Vamos f lha! Caso senão as ondas nos vão engolir”.
O pai rodopiava em seu redor, se culpando do estado da menina. Dançou, cantou, pulou. Tudo para a distrair. Depois, decidiu as vias do facto: meteu mãos nas axilas dela e puxou-a. Mas peso tão toneloso jamais se viu. A miúda ganhara raiz, afloração de rocha?
Desistido e cansado, se sentou ao lado dela. Quem sabe cala, quem não sabe fica calado? O mar enchia a noite de silêncios, as ondas pareciam já se enrolar no peito assustado do homem. Foi quando lhe ocorreu: sua filha só podia ser salva por uma história! E logo ali lhe inventou uma, assim:
Era uma vez uma menina que pediu ao pai que fosse apanhar a lua para ela. O pai meteu-se num barco e remou para longe. Quando chegou à dobra do horizonte pôs-se em bicos de sonhos para alcançar as alturas. Segurou o astro com as duas mãos, com mil cuidados. O planeta era leve como um baloa.
Quando ele puxou para arrancar aquele fruto do céu se escutou um rebentamundo. A lua se cintilhaçou em mil estrelinhações. O mar se encrispou, o barco se afundou, engolido num abismo. A praia se cobriu de prata, flocos de luar cobriram o areal. A menina se pôs a andar ao contrário de todas as direcções, para lá e para além, recolhendo os pedaços lunares. Olhou o horizonte e chamou:
- “Pai!”
Então, se abriu uma fenda funda, a ferida de nascença da própria terra. Dos lábios dessa cicatriz se derramava sangue. A água sangrava? O sangue se aguava? E foi assim. Essa foi uma vez.
Chegado a este ponto, o pai perdeu voz e se calou. A história tinha perdido fio e meada dentro da sua cabeça. Ou seria o frio da água já cobrindo os pés dele, as pernas de sua filha? E ele, em desespero:
- “Agora, é que nunca”.
A menina, nesse repente, se ergueu e avançou por dentro das ondas. O pai a seguiu, temedroso. Viu a filha apontar o mar. Então ele vislumbrou, em toda extensão do oceano, uma fenda profunda. O pai se espantou com aquela inesperada fractura, espelho fantástico da história que ele acabara de inventar. Um medo fundo lhe estranhou as entranhas. Seria naquele abismo que eles ambos se escoariam?
- “Filha, venha para trás. Se atrase, filha, por favor”...
Ao invés de recuar a menina se adentrou mais no mar. Depois, parou e passou a mão pela água. A ferida líquida se fechou, instantânea. E o mar se refez, um. A menina voltou atrás, pegou na mão do pai e 0 conduziu de rumo a casa. No cimo, a lua se recompunha.
- “Viu, pai? Eu acabei a sua história!”
E os dois, iluaminados, se extinguiram no quarto de onde nunca haviam saído.
*
Antônio Emílio Leite Couto nasceu em Beira, Moçambique, em 1955. O nome “Mia” é proveniente de sua paixão pelos gatos e pelo fato de seu irmão menor, em tempos de infância, não conseguir proferir seu nome corretamente.
Cursava Medicina, quando logo iniciou os primeiros trabalhos no Jornalismo. Abandonou a medicina, e passou a se dedicar inteiramente à escrita.
Mia Couto tornou-se diretor da Agência de Informação de Moçambique e logo passou a se dedicar à biologia. Tem suas obras traduzidas para o alemão, francês, espanhol , catalão, inglês e italiano.
Iniciou seus lançamentos literários através da poesia , publicando o livro “Raiz de Orvalho” em 1983. Já havia participado de uma antologia poética, em edição do Instituto Nacional do Livro e do Disco, com a participação do poeta moçambicano Orlando Mendes.
Logo passou a se dedicar aos contos e às crônicas publicadas em semanários moçambicanos, veiculados na capital Maputo.
Mia Couto é filho de portugueses, e era militante da Frente de Libertação de Moçambique, lutando pela independência de seu país entre 1964 a 1974. Ajudou a compor o hino nacional moçambicano, e trabalhou para o governo durante a guerra civil culminada no período de 1976 a 1992.
Tornou-se no primeiro africano a vencer o prêmio União das Literaturas Românticas, recebido em Roma. A obra “Terra Sonâmbula” Foi eleita um dos 12 melhores livros de todo continente africano no século XX.
O fim chegou, deixou apenas um poema - Florbela Espanca
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos de Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!
*
Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 36 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos.
Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.
Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos.
Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.
Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.
Inconstância - Florbela Espanca
"Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!
Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...
.
E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando..."
.
*
Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 36 anos, «de uma doença que ninguém entendeu», mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos.
Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.
Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos.
Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões.
Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Frases e mais frases
Essas frases, por mais incrível que pareça, foram publicadas em alguns jornais há algum tempo atrás.
Confira.
“A nova terapia traz esperanças a todos os que morrem de câncer a cada ano.” – JORNAL DO BRASIL
(Na cova?)
“Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem
intensamente.” – O GLOBO
(O frio não estava filiado ao sindicato grevista)
“Os sete artistas compõem um trio de talento.” – EXTRA
(Hã?)
“A vítima foi estrangulada a golpes de facão.” – O DIA
(Uma nova modalidade de estrangulamento)
“Os nossos leitores nos desculparão por esse erro indesculpável.” – O GLOBO
(De modo algum!)
“No corredor do hospital psiquiátrico os doentes corriam como loucos.” – O DIA
(Naturalmente….)
“Ela contraiu a doença na época que ainda estava viva.” – JORNAL DO BRASIL
(Jura mesmo?!)
“Parece que ela foi morta pelo seu assassino.” – EXTRA
(Não diga!)
“O acidente foi no triste e célebre Retângulo das Bermudas.” – EXTRA
(Gente, até ontem era um triângulo! Vai ver que qualquer dia inventem o
CÍRCULO DAS BERMUDAS…)
“O velho reformado, antes de apertar o pescoço da mulher até a morte, se
suicidou.” – O DIA
(Seria a volta dos mortos-vivos?)
“A polícia e a justiça são as duas mãos de um mesmo braço.” – EXTRA
(Que aberração!)
“Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério, para a satisfação dos habitantes.” – JORNAL DO BRASIL
(Água no além para purificar as almas…)
“O aumento do desemprego foi de 0% em novembro.” – JORNAL DO BRASIL
(Onde vamos parar desse jeito?)
“O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos.” – JORNAL DO BRASIL
(Quanta confusão!)
“Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.” – JORNAL DO BRASIL
(Ah, bom! Achei que fosse um churrasco!)
“Na chegada da polícia, o cadáver se encontrava rigorosamente imóvel.” – JORNAL DO BRASIL
(Viu como ele é disciplinado?)
“O cadáver foi encontrado morto dentro do carro.” – JORNAL DO BRASIL
(Sem comentários…)
“Prefeito de interior vai dormir bem, e acorda morto.” – JORNAL DO BRASIL
(Já acordou no céu! Ah, não… O cara era prefeito… Acordou com o calorzinho do inferno!)
Confira.
“A nova terapia traz esperanças a todos os que morrem de câncer a cada ano.” – JORNAL DO BRASIL
(Na cova?)
“Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem
intensamente.” – O GLOBO
(O frio não estava filiado ao sindicato grevista)
“Os sete artistas compõem um trio de talento.” – EXTRA
(Hã?)
“A vítima foi estrangulada a golpes de facão.” – O DIA
(Uma nova modalidade de estrangulamento)
“Os nossos leitores nos desculparão por esse erro indesculpável.” – O GLOBO
(De modo algum!)
“No corredor do hospital psiquiátrico os doentes corriam como loucos.” – O DIA
(Naturalmente….)
“Ela contraiu a doença na época que ainda estava viva.” – JORNAL DO BRASIL
(Jura mesmo?!)
“Parece que ela foi morta pelo seu assassino.” – EXTRA
(Não diga!)
“O acidente foi no triste e célebre Retângulo das Bermudas.” – EXTRA
(Gente, até ontem era um triângulo! Vai ver que qualquer dia inventem o
CÍRCULO DAS BERMUDAS…)
“O velho reformado, antes de apertar o pescoço da mulher até a morte, se
suicidou.” – O DIA
(Seria a volta dos mortos-vivos?)
“A polícia e a justiça são as duas mãos de um mesmo braço.” – EXTRA
(Que aberração!)
“Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério, para a satisfação dos habitantes.” – JORNAL DO BRASIL
(Água no além para purificar as almas…)
“O aumento do desemprego foi de 0% em novembro.” – JORNAL DO BRASIL
(Onde vamos parar desse jeito?)
“O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos.” – JORNAL DO BRASIL
(Quanta confusão!)
“Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.” – JORNAL DO BRASIL
(Ah, bom! Achei que fosse um churrasco!)
“Na chegada da polícia, o cadáver se encontrava rigorosamente imóvel.” – JORNAL DO BRASIL
(Viu como ele é disciplinado?)
“O cadáver foi encontrado morto dentro do carro.” – JORNAL DO BRASIL
(Sem comentários…)
“Prefeito de interior vai dormir bem, e acorda morto.” – JORNAL DO BRASIL
(Já acordou no céu! Ah, não… O cara era prefeito… Acordou com o calorzinho do inferno!)
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