quinta-feira, 29 de julho de 2010

Crônica – A violência virou rotina

        Nasci numa cidade do interior do Ceará, localizada no Sertão dos Inhamuns, 51 anos atrás, onde passei minha meninice brincando nas ruas, tomando banho de rio, convivendo com a paz que toda cidade do interior tinha. Lembro que naquelas ruas, a única violência que se via, era o correr desenfreado da cachorrada quando algum gato mais atrevido ou desavisado invadia o território dos cães. E a meninada se divertia vendo aquele corre-corre. Naquele tempo os cães não se davam com os gatos. Afora essa “violência”, nessa época não se ouvia falar em qualquer outra.

       As calçadas estavam sempre apinhadas de famílias jogando conversa fora até altas horas, e naquelas ruas a meninada crescia lentamente. Lembro que depois de exaustos das brincadeiras, nossa mãe nos mandava tomar banho se aquietar e esperar o sono chegar. E lá íamos cumprir a determinação. Banhados, livres da poeira de um dia de muito suor e diversão, voltávamos à calçada, sentávamos no colo dela e recebíamos dela e da noite os carinhos que nos amoleciam o corpo e alma, e em poucos minutos éramos levados pelo sono, bem ali mesmo na calçada nos braços da nossa mãe, adormecíamos.

        Hoje, vivo numa metrópole com seus quase três milhões de habitantes,  Aqui, na terra da luz – como é conhecida Fortaleza – durante o dia os automóveis mandam também nas calçadas e durante as noites nas calçadas vazias, se percebe o medo vagando e onde a presença dos muros altos enfeitados com cercas eletrificadas, vidros ou pontiagudos grampos enferrujados, feios enfeites do medo calam a alegria e a vida. Muros que dão a falsa impressão de protegerem a infância desses dias tão violentos.

       Os gatos já não temem os cães como outrora, é comum vê-los dormindo lado a lado e até comendo no mesmo prato um do outro. Hoje, o cidadão de bem é que tenta fugir e se proteger dos “cães” das ruas, querendo se esquivar da violência que as drogas e os outros vícios trazem.

        Vez por outra tenho noticias da minha cidade, e elas me são tão preocupantes com relação a violência, como as noticias do cotidiano na metrópole despojada pelo sol.

        A violência virou rotina de fato. Instalou-se no nosso dia a dia como praga abominável, e o terrorismo das ruas vai fazendo vitimas e mais vítimas, que muitas vezes sequer chegam a ter infância. E quando não somos surpreendidos por ela nas esquinas, nos sinais, na fila de um banco, ela vem a nossa procura, seqüestrar a paz do nosso lar.

       ...Tenho muita saudade do tempo em que os gatos temiam os cães.

Varley
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