As
calçadas estavam sempre apinhadas de famílias jogando conversa fora até altas
horas, e naquelas ruas a meninada crescia lentamente. Lembro que depois de
exaustos das brincadeiras, nossa mãe nos mandava tomar banho se aquietar e
esperar o sono chegar. E lá íamos cumprir a determinação. Banhados, livres da
poeira de um dia de muito suor e diversão, voltávamos à calçada, sentávamos no
colo dela e recebíamos dela e da noite os carinhos que nos amoleciam o corpo e
alma, e em poucos minutos éramos levados pelo sono, bem ali mesmo na calçada
nos braços da nossa mãe, adormecíamos.
Hoje, vivo numa metrópole com seus quase três milhões de habitantes, Aqui, na terra da luz – como é conhecida
Fortaleza – durante o dia os automóveis mandam também nas calçadas e durante as
noites nas calçadas vazias, se percebe o medo vagando e onde a presença dos
muros altos enfeitados com cercas eletrificadas, vidros ou pontiagudos grampos
enferrujados, feios enfeites do medo calam a alegria e a vida. Muros que dão a
falsa impressão de protegerem a infância desses dias tão violentos.
Os
gatos já não temem os cães como outrora, é comum vê-los dormindo lado a lado e
até comendo no mesmo prato um do outro. Hoje, o cidadão de bem é que tenta
fugir e se proteger dos “cães” das ruas, querendo se esquivar da violência que
as drogas e os outros vícios trazem.
Vez por outra tenho noticias da minha cidade, e elas me são tão preocupantes
com relação a violência, como as noticias do cotidiano na metrópole despojada
pelo sol.
A violência virou rotina de fato. Instalou-se no nosso dia a dia como praga
abominável, e o terrorismo das ruas vai fazendo vitimas e mais vítimas, que
muitas vezes sequer chegam a ter infância. E quando não somos surpreendidos por
ela nas esquinas, nos sinais, na fila de um banco, ela vem a nossa procura,
seqüestrar a paz do nosso lar.
...Tenho
muita saudade do tempo em que os gatos temiam os cães.
Varley

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