"Um velho e a solidão"
Havia um ancião que sentava tardes afio a
varanda de uma casa envelhecida, o tempo passava e um cachimbo enegrecido em
longas baforadas lhe fumava a vida. Corpo franzino, vergado, faces talhadas por
sulcos riscados pelos anos, mãos trêmulas que gesticulavam inquietas, arrastava
seus grandes pés como se não tivesse forças para levantá-los, parecia carregar
o peso do mundo, vestia um pijama de listras desbotadas sujo e feio, Todas as
tardes estava ali. Por vezes percebia que palavreava sem que nenhuma vogal lhe
saísse. Vivia só com todo aquele silêncio, com toda aquela solidão. Eu tinha
então onze ou doze anos e não conseguia entender a vida que aquele senhor
levava.
O tempo desfiava-se em anos e o velho lá,
tardes e mais tardes a baforar seus dias entre resmungos gestuais e
reminiscências ruminadas numa solidão inquietante sem nada legível a
pronunciar, sem que ninguém lhe escutasse todos os silêncios, gestos e fumaça.
Uma tarde, a cadeira de balanço esperou e
esperou o velho que não vinha, já beirava fim de tarde e de repente um carro
negro parou defronte ao portão da casa envelhecida, desceu um homem grisalho
com uma maleta preta à mão e entrou sem cerimônia. Chovia fino, gotas ralas,
pareciam lágrimas despencando do céu com preguiça. Não muito tempo depois, um
rabecão estaciona, desce dois outros homens vestidos de branco e pouco tempo
depois levam consigo o ancião sem vida e ambos os carros somem sob a chuva
pouca.
Um dia ouvi meu pai dizer que caixão
pequenino era coisa mais sofrida, dor mais doída, algo sem igual, mas ao ver
passar por mim aquele caixão enorme que guardava o velho uma dor forte doeu-me
o peito que em pensamento disse para mim, jamais quero ver um caixão pequenino.
Portão e porta entreabertos pareciam me
convidar para entrar e fiz o que minha meninice curiosa quis.
Empurrei a porta levemente, ela chorou alto,
forte e logo calou, dei de cara com toda a solidão e silêncio que faziam
companhia ao velho que morrera, uma mesa de madeira cansada, um prato, um talher
e um copo tão velhos quanto aquele ambiente sombrio, no quarto uma cama com um
lençol amarrotado, o cachimbo deitado ao chão e á varanda, a também velha
cadeira de balanço esperava o ancião que partira.
Ainda hoje, aquele senhor senta-se a minha
visão aquela cadeira, só não vejo mais a fumaça que o vento carregava, o tempo
fumou-lhe toda a vida.
Aquele senhor fazia parte da minha própria
vida sem sequer um contato, sem sequer uma palavra, enfim, sem nada que nos
ligasse de fato. Que eu me lembre esse foi meu primeiro contato com a morte e
nos anos seguintes pesava-me demais toda aquela ausência.
O tempo não parava de desfiar-se em anos e me
envelhecia também e a imagem inquietante do velho que fumava a morte
silenciosamente não me saía da memória, apesar de ter consciência da minha
pouca idade a época, de certa maneira hoje me culpo por ter aceitado que o silêncio
me mantivesse distante.
A casa silenciosa morrera também, agora ali
um enorme espigão sombreia metade da rua, centenas de pessoas moram uma sobre as
outras numa obra que esbanja beleza e força e a solidão que morava com o
velho... Hoje vive comigo.
Varley Farias
Varley Farias
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