quarta-feira, 15 de novembro de 2006

"Beija-me"

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Beija-me,
O beijo sensual, lascivo,
O beijo vivo
Nos meus lábios mortos
De saudade.

Beija-me,
O beijo que me deixará cativo,
O beijo atrativo
Dos instintos tortos
De vaidade.

Beija-me,
O beijo que me encanta tanto,
O beijo acalanto,
Para por fim ao meu cansaço
Por esperar.

Beija-me,
O beijo que preciso,
O beijo paraíso,
Para que me seja um regaço
Esse teu beijar.

Beija-me,
Assim, de qualquer maneira,
E faz-se a primeira
Nos meus lábios imaturos
E cheios de desejos.

Beija-me,
Assim, como quer que queira
O que importa é que será a derradeira
Nos meus lábios inseguros
Sem teus beijos.

© Varley
do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, vol. 32

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

"Pedaços"

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O dia vaza nas horas rastejantes
A noite chega trazendo um ardente desejo
Eu nos teus braços amantes
Tua boca na minha boca, doce beijo.

A noite chega tangendo incertezas
No véu das horas que no vento se vão
Você nos meus braços completando a beleza
Das horas que passam marcando a ilusão

A madrugada se esvai lentamente
No vão das horas que se vão passando
Eu nos teus braços atentamente
Querendo gritar ao mundo que estou te amando

O dia chega diluindo verdades
Em mim um desespero se apossa ligeiro
Agora as horas me trazem saudade
Daquelas horas em que te amei por inteiro

Agora, sozinho e sem tempo
Sem dia, sem noite, sem hora sequer
Sou o que resta de um pensamento
Que trouxe para meus braços tão furtiva mulher

Agora, sem amor, sem nexo, sem sexo
Com toda a contradição
Sou do desamor o reflexo
Do espelho que em mim refletiu desilusão

Agora, no meio de um pranto
Que não serve sequer de acalanto
Ou me trás qualquer feliz sensação

Sou apenas fera ferida
Algo que vive sem ter vida
Respirando o ar fatal da solidão

Sou apenas espelho quebrado
Estilhaçado
Dividindo em pedaços meu coração


© Varley

do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, vol. 33



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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

"Na parede da memória"


Calara-se a suavidade de sua voz cansada
Quando a idade já lhe pesava tanto
E os anos, no vão do tempo que se perdiam na memória
Passaram por ela escrevendo nos dias
Uma rica e bela história

As faces ressequidas e tão açoitadas pelo chicote do tempo
As mãos vivas a todo momento
Davam sinais de inquietude
E seus passos lentos que duravam séculos
Testavam-me a paciência tão escassa

Na solidão de seus últimos anos
Vivia a ruminar palavras mudas
E vez por outra vazavam no ar sons "criptografados"
Ah! Como eu fazia força para entendê-la
Ao menos uma palavra

O seu olhar pacifico me acarinhava tanto
E dizia-me de um amor que ela nutria por mim.
Eu sentia esse amor como sentia o silencioso calor do sol
Das manhãs de todos os dias

Ah! Como são eternas aquelas manhãs em mim
Quando eu, envolto na minha ingenuidade infantil
Vivia a admirá-la de longe, e perguntar-me
Para onde ela tanto olhava ?
E o que ela tanto via lá ?

Hoje, na mesma varanda que ela sentava-se todas as manhãs,
Há apenas a sua cadeira velha a emoldurar a sua ausência,
E em mim uma saudade que emoldura sua presença pacifica e enigmática,
Pintada na minha memória como se fosse
Um quadro de Da Vinci

© Varley
do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, Vol. 31


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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

"Noutras bocas, noutros corpos."


foto encontrada na internet, não sei quem é o autor da foto acima
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Noutras bocas,
Noutros corpos
Buscando em vão
No vão das almas
A tua.

E vou a insinuar-me
Pela vastidão da carne nua
Suando e gozando o prazer
Sem méritos,
No descrédito das ruas.

Noutras bocas,
Noutros corpos,
Em vão entrego-me.

E vou vivendo a ilusão
De ser feliz
Depois do adeus.

Noutras bocas
Que não são a tua,
Noutros corpos
Que não são o teu.

© Varley

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