sábado, 25 de dezembro de 2010

Mais um natal.

Mais um natal e eu com meu quase ateísmo convicto não posso deixar de ver mais uma vez nessa época, que a imagem do bom velhinho tem mais força do que da criança inerte na manjedoura, e lendo essa semana que no Japão, menos de um por cento das pessoas são cristãs, e que bem mais de noventa por cento do país comercializa o natal, vive o natal, se enfeita de natal, confirmei minha suspeita de que o real sentido da época é puramente comercial em qualquer lugar que se esteja.

Há um presépio de cristal, ouro e diamantes armado na sala do magnata, há um presépio de gesso desejado na casa do trabalhador, há um presépio de fumaça embaçando a vida do viciado nas esquinas, tantos presépios e pouquíssimos simbolizando nascimento, quase nenhum vende a imagem de vida, de renascimento, de fé.

Muitas casas, poucas moradas, muitos ritos pouca fé, muitos vendilhões nos templos da credulidade, comercializando a opulência, incentivando o ter em detrimento do ser.

Como quase ateu convicto me pergunto constantemente nessa época de pisca-piscas, trenós e renas, onde fica o filho de Deus depois da troca de presentes?

Onde ele se senta na mesa farta da ceia na noite santificada e nas demais noites do ano?

E quanto tempo levará para que suas primeiras palavras consigam chegar aos ouvidos dos embriagados na noite de festa?

Logo é ano novo e mais perguntas me veem, como o piscar incessante de luzes na árvore de plástico do meu quase ateísmo convicto.

Quantos filhos de Deus não chegarão sequer a deitar na manjedoura ao terem suas vidas ceifadas por alguma droga, somente porque o divino espírito santo da vez, não quis assumir a paternidade temida?

Quantos filhos de Deus não conseguirão chegar aos trinta e três anos de vida, porque um vício qualquer os fez esmaecerem-se no ar, misturados a uma fumaça alucinante?

Quantos filhos de Deus perderão suas vidas pelas calçadas ou mesmo nos seus próprios lares quando um projétil qualquer, for batizado de bala perdida?

Quantos e quantos filhos de Deus vestirão paletó, engravatarão seus colarinhos brancos e optando pelo lado de Judas, beijando rostos, trairão, enganarão e matarão seus crédulos irmãos?

E quantos bilhões conseguirá a figura do Santa Claus vender, nesse mundo cada vez mais capitalista, enquanto tantos filhos de Deus alimentam-se de terra e excremento nos confins onde a mídia alcança e cala, porque o que da retorno financeiro é a opulência da mesa farta dos natais?

Mas, voltando ao pequenino da manjedoura e se a ele associássemos um produto qualquer, logo ele faria páreo ao obeso velhinho vestido de rubro e em outros natais veríamos crianças recém nascidas sendo patrocinadas por empresas, deitadas em berços exibindo logomarcas nos corredores dos shoppings centers e nas salas de todos os lares.

O natal de hoje é traduzido também na reunião de pessoas que se amam ou pelo menos se toleram, e que encharcadas de falsas alegrias engarrafadas, não conseguem ouvir o balbuciar das primeiras palavras do recém-nascido, que diz ingenuamente “ama a teu próximo assim como eu vos amo”.

Mas não foram os natais que acenderam meu quase ateísmo convicto, da mesma forma que não foi o papai Noel que matou a criança da manjedoura, os grandes culpados são os excessos de fé e a falta dela, o ter superando o ser, o que me vendeu o pacote ateísta, foi ver uma “Maria” enterrando vivo o seu “Jesus”, foi ver um “Jesus” sentado na sarjeta segurando um cachimbo feito de lata enquanto uma família era levada pela fumaça da queima de uma pedra maldita.

O que alimenta o meu quase convicto ateísmo, é perceber que os Judas ainda sentam à mesma mesa graças ao perdão que lhe foi dado pelo “Jesus” que lhe ofertou o pão, e que ainda vivem os Judas.

Demo-nos presentes, festejemos o nascimento, mas ouçamos e deixemos que façam algum sentido em nós às palavras do menino Jesus.


Varley

Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivs 3.0 Unported License.

Nenhum comentário: