terça-feira, 13 de julho de 2010

Meus dias


Meus dias hoje são mutantes
Nalguns encontro paz e algumas gotas de alegria
Noutros, guerra e uma enxurrada de nostalgia
Há também aqueles em que não encontro nada
Nem lembranças saudosas
Nem sequer uma poesia

Varley
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Sem animo


Como se não bastasse essa dor
Esse espinho a sangrar-me
Ainda por cima essa certeza
De sentir a felicidade vazar
Como areia fina e breve
E agora, cá estou eu
As margens do Tejo
Lembrando águas que passaram
E sem animo de seguir a ponte


Varley
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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Eu, Etiqueta

Carlos Drummond de Andrade

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente) .
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.
Carlos Drummond de Andrade

O corpo.
Rio de Janeiro
Record,1984,
p.85-7


* Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro - MG, em 31 de outubro de 1902. De uma família de fazendeiros em decadência, estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do incipiente movimento modernista mineiro.
Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925. Fundou com outros escritores A Revista, que, apesar da vida breve, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil.
O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond, Alguma poesia (1930) e Brejo das almas (1934), em que o poema-piada e a descontração sintática pareceriam revelar o contrário. A dominante é a individualidade do autor, poeta da ordem e da consolidação, ainda que sempre, e fecundamente, contraditórias. Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar.
Vem daí o rigor, que beira a obsessão. O poeta trabalha sobretudo com o tempo, em sua cintilação cotidiana e subjetiva, no que destila do corrosivo. Em Sentimento do mundo (1940), em José (1942) e sobretudo em A rosa do povo (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo. A surpreendente sucessão de obras-primas, nesses livros, indica a plena maturidade do poeta, mantida sempre.
Várias obras do poeta foram traduzidas para o espanhol, inglês, francês, italiano, alemão, sueco, tcheco e outras línguas. Drummond foi seguramente, por muitas décadas, o poeta mais influente da literatura brasileira em seu tempo, tendo também publicado diversos livros em prosa.
Em mão contrária traduziu os seguintes autores estrangeiros: Balzac (Les Paysans, 1845; Os camponeses), Choderlos de Laclos (Les Liaisons dangereuses, 1782; As relações perigosas), Marcel Proust (La Fugitive, 1925; A fugitiva), García Lorca (Doña Rosita, la soltera o el lenguaje de las flores, 1935; Dona Rosita, a solteira), François Mauriac (Thérèse Desqueyroux, 1927; Uma gota de veneno) e Molière (Les Fourberies de Scapin, 1677; Artimanhas de Scapino).
Alvo de admiração irrestrita, tanto pela obra quanto pelo seu comportamento como escritor, Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987, poucos dias após a morte de sua filha única, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.

Cidadão

Zé Geraldo
Composição: Lucio Barbosa

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me chega um cidadão
E me diz desconfiado, tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?
Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar o meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Pus a massa, fiz cimento
Ajudei a rebocar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz “amém”
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá sim valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse
Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar

Fui eu quem criou a Terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

Fui eu quem criou a Terra
Enchi o rio fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
“Se escrevi esta carta tão longa, foi porque não tive tempo para fazê-la mais curta.”
Blaise Pascal, filósofo francês do século XVII

terça-feira, 6 de julho de 2010

Solidão


Eu, que me senti perdido em um labirinto
Nas madrugadas cheias de escuridão
Dei-me de alimento a um cão faminto
Enorme monstro que atendia por solidão

E foram tantas as dores que sentia
E fora tanto sangue derramado
Que dos meus olhos tristes escorria
A alma de um ser desfigurado

Suas mandíbulas de presas penetrantes
Tinham a força de mais de mil saudades
Eu sentia meu corpo dilacerado em instantes
Deixando partes pelas esquinas da cidade

Era assim a solidão que me matava
Esse monstro de crueldade e horror
Hoje recomposto, coisa que nem sonhava
Combato-a entregando-me ao amor

Varley
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim…

Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me
abraçando.

Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,

quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.

Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…

Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que
eu, em algum momento, fui insubstituível…

E que esse momento será inesquecível..

Só quero que meu sentimento seja valorizado.

Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a
situação não for muito alegre…

E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao
meu redor.

Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém…

e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim
quando fecha os olhos,

que faço falta quando não estou por perto.

Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,

alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…

Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons

sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente

importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele.

E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca

cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.

Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso
acontecer, quero ter

forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe…

Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem
humildade e paz.

Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro
dia,

e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,

talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.

Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas…

Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo
de verde e entendê-lo como “sim”.

Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder

dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim,

sem ter de me preocupar com terceiros…

Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão…

Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,

que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…

e que valeu a pena.
de Mário Quintana ou Adriana Britto
Oração do Verso Nosso

Verso nosso que estais ao léu
Conjugado seja o vosso pronome
Venha nós o vosso acento
Seja feita a vossa pluralidade
Assim no teclado, como no papel
O verso nosso de cada dia nos dai hoje
Perdoai-nos as nossas reticências
Assim como nós perdoamos o hiato estendido
E não nos deixeis cair em interrogação
Mas livrai-nos do ponto final


Hifén !



(Cris de Souza)
Agora sim, consegui te tirar de mim
e tudo o que significavas em minha alma
e tudo que representavas para mim
Agora sim, onde estiveres ouves meu adeus
comigo por um bom tempo ainda, sei que ficarão
as lembranças dos risos, dos beijos, das horas de amor
mas, até elas serão levadas pelo tempo
Agora sim, consegui te tirar de mim
Contigo aprendi que um amor não se mata
com um adeus, nem com vários
aprendi contigo, que se mata o amor com o silêncio
Agora sim, consegui te tirar de mim
e meu amor já não respira
Porque agora sim, consegui te tirar de mim
can you feel my heart?
no, you don´t can more feel my heart
you don´t can feel me more

sábado, 3 de julho de 2010

Consolando o coração



Nosso caso era uma porta entreaberta
E sempre em hora incerta
Trancava a razão do lado de fora

Mas nem sempre foi assim
Não havia essa constância de final sem fim
Tão pouco essa solidão de agora

Buscastes noutros lábios a presença dos meus
Como busco agora incessante noutros, os lábios teus
E nessa busca conscientes, decretamos o fim

Quisera não fosse dessa forma
Pois meu coração não se conforma
E a muito ele só faz doer em mim

Mas, não me caem lagrimas agora
Pelo adeus que me foi dado outrora
Quando outra boca a tua beijou

Eu que tanto já chorei
Me conformo pois agora sei
Que nosso caso terminou

Aceitemos em silêncio esse adeus
Pois sabemos que os sonhos que eram meus e teus
Jamais se realizarão

Não busquemos um culpado
Nem saber quem amou errado
Esqueçamos o passado consolando o coração

Varley
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Eu pago por um amor

Eu pago por um amor
Que me beije a boca sedenta
Que dê vida ao meu corpo cansado
Carregado de solidão

Eu pago por um amor
Que me condene ao açoite
De ter como companhia toda noite
Um abraço de ilusão

Eu pago por um amor
Que beba magoas comigo
Ou que me dê algum motivo
Para simplesmente sorrir

Eu pago por um amor
Que me embriague de felicidade
E que pelas esquinas da cidade
Não me deixe cair

Eu pago por um amor
De mentira. Que seja!
Afinal o que minha alma deseja
É sentir que continua a viver

Eu pago por um amor
Um amor qualquer
De alguma mulher
Que me faça te esquecer


Varley
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Lembro...

Há mais perfumes em minhas lembranças
Do que nas rosas de todos os jardins
Lembro teu olhar de carência
Colhendo carinhos que sobravam em mim

Lembro teus lábios de pura sedução
Iguais aos gomos de fruta doce e suculenta
Lembro da maciez de tuas pequeninas mãos
Num toque de harmonia que já não me acalenta

Lembro da vazão dos sentimentos
Quando nos teus olhos orvalhavam saudade
Lembro e lembro de todos os momentos
Quando me beijavas me impregnando de felicidade

Lembro do suor dos nossos corpos carentes
Numa ânsia infinda de se dar
Lembro da saudade permanente
Quando meus olhos não conseguiam te olhar

Lembro dos beijos carregando desejos sem fim
Onde nossa saliva nos encharcava de emoção
Lembro dos teus olhares que eram para mim
Olhares de graça e da mais completa perfeição

Lembro das incontáveis gargalhadas
Quando juntos riamos sem muita razão
Lembro da nudez desavergonhada
Quando nos amávamos sob os lençóis da paixão

Hoje, quero esquecer
Que tenho que lembrar pra viver
E que é somente isso que faço na vida

E se eu tiver que morrer
Morrerei feliz só porque
Morto não lembrarei a despedida



Varley
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As dores de amar

Quando conheci a poesia, num beijo molhado
Me salivaram os versos de Pessoa
Meus ouvidos ouviram Espanca
Meu coração disparado, drumoniava
Enquanto Chico cantava “Eu te amo”

O paletó dele abraçado ao vestido da amada
Juntos confundindo suas pernas
E eu do alto da minha adolescência nem sonhava
Que as dores de amar, eram eternas

Hoje concluo, que amei e amei tanto
E tanto vi minha amada pisar nos astros distraída
Até que um dia a porta do barraco ainda sem trinco
Testemunhou a triste partida

E foram-se as emoções
Nos tempos idos que não voltam mais
Durante àquele beijo molhado eu nem imaginava
Que as dores de amar doem demais



Varley
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Carência sem fim

Cálidas noites de prazer
nos teus braços encontrei
antes, nada sabia de amar
graças a teus beijos agora sei

E nossas almas entrelaçadas
carregadas de carência sem fim
se entregando pelas madrugadas
despertando prazeres adormecidos em mim


Varley
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O amor tem eterna conjugação

Ele virá, montado em um corcel
E trará um céu
Da cor de toda ilusão

Beijara tua boca sedenta
E o vento que tudo afugenta
Levará consigo toda razão

Ele te amará pela noite inteira
E nenhuma vontade derradeira
Ficará sem satisfação

Te violará o corpo num ímpeto de desejo
E nenhum derradeiro beijo
Te causará qualquer desilusão

E vocês se amarão por toda noite
E sentirão da vida o gostoso açoite
Que é se entregar a uma paixão

E quando o tempo vos findar
Vocês ainda hão de se amar
Porque o amor tem eterna conjugação


Varley
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SONETO DA DESPEDIDA - Afonso Estebanez

Foi necessário que chovesse tanto
para que tanto mais o sol voltasse
a refletir a luz que a dor do pranto
inundou de penumbra minha face.

Foi-me defeso ressentir do quanto
sob a cinza do amor em desenlace
ainda me encantaria o desencanto
se esse rio de mágoa não secasse.

Não refaças o curso dos meus rios
nem acenes ‘adeus’ para os navios
de sonhos idos do meu velho cais.

Não levo nada... Só a necessidade
que ainda tenho de sentir saudade
de teus instantes mórbidos de paz.

Meu desritmado coração

Na pele um arrepio
E o assedio torturante dos desejos
Minha vida por um fio
Vivendo das lembranças dos teus beijos

Sobre a cama desfeita
Jaz o desalinho de toda ilusão
Nossas roupas numa desordem perfeita
Espalhadas pelo chão

Meu coração sangrando
A dor que o mantém
Meus lábios desejando
Os lábios que já não teem

Meu corpo em descompasso
Pelas ruas buscando
Me perdendo dos teus passos
Vou a revelia me entregando

Como que querendo me vingar
Vago por vagar
Nas esquinas dessa desilusão

E é tanta dor e sofrer
Porque ainda bate por você
Meu desritmado coração



Varley
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Impasse - Orlando Tejo

Se ficar onde estou não faço nada,
Se sair por aí corro perigo,
Se me calo minhalma é sufocada,
Se disser o que sei faço inimigo...

Se pensar vou trair a madrugada
E se sonho de mais vem o castigo,
Se quiser subo até o fim de escada,
Mas precisar brigar, e eu não brigo!

Se cantar atropelo o contracanto,
Se não canto maltrato o coração,
Se me faço sofrer me desencanto,

Se reprimo o ideal perco a razão,
Se perder a razão, resta-me o pranto
E meu pranto não faz uma canção.

Espiritualismo - Antero de Quental

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.