Cresci, e não tenho mais os sonhos de voar, coisa comum a todos que crescem. Perdemos os melhores sonhos, que vão dando lugar a sonhos mais mesquinhos.
Lembro que sonhava em voar. Eu era então um mirrado menino do interior, nascido em um lugarejo no meio do nada no sertão nordestino, onde se sonhava mais do que vivia, num lar onde sonhar era sempre o melhor remédio para combater a fome. De uma família de dez irmãos raquíticos como eu, franzinos como eu, sonhadores como eu. Filhos de pais trabalhadores, escravos da lida cotidiana, cujas mãos calejadas, vitimas da madeira grosseira dos cabos das enxadas, mais pareciam petrificadas de tão rudes. Mãos que sequer sabiam acarinhar de tão embrutecidas. Mas mesmo com toda a rudez das mãos dos meus pais, todos recebíamos carinhos disfarçados, ora quando deixavam de comer para que a prole enganasse a fome com alguns poucos caroços de feijão, arroz e umas poucas colheradas de farinha, cardápio e quantidade muito comum no prato de todo sertanejo, ora quando se emaranhavam sertão a dentro, levando a tiracolo o rebento adoentado para tentar ajuda na cidade grande sempre tão distante nessas horas de dor. Sim, esses eram os valorosos carinhos que recebíamos de nossos pais calejados.
Esse sonho de voar, nasceu quando meus olhos de dez anos de idade, olhavam fixos um Carcará, o predador dos ares no sertão, bailando ao sabor dos ventos, dando rasantes nos galhos mortos, mergulhando no véu cinzento e emergindo quase sempre com um roedor no bico poderoso, e quando ele desaparecia das minhas vistas, meus olhos caiam em si, e eu via toda a carência que rodeava a vida que levávamos, cercada de morte e desolação no coração da Caatinga. Ficava horas imaginando-me planando nas correntes dos ventos quentes que sopravam nem sei de onde, e uma pergunta me saltava a cabeça. Por que aquele Carcará não ia buscar noutras bandas do mundo algo mais saboroso para comer e um lugar melhor para viver? Então comecei a sonhar com asas, imaginava-me partindo daquela escaldante vida de bicho, e carregando sobre minhas asas, meus irmãos e meus pais, até pensava, que com o peso deles seria coisa fácil, afinal, eram todos tão mirrados, tão poucos em si, que não pesariam nada.
Um dia, meu pai que havia sumido dois dias atrás, chega carregado nas costas de um caminhão envelhecido e barulhento, abre a porta pendente e enferrujada daquele ancião de rodas, desce e diz a minha mãe: Vamos, pega os meninos, vamos sair daqui agora.
Com uma pressa não comum a ele, pegou-me no braço, colocou-me na carroceria de madeira feia, deixou-me ali, foi pegando cada um dos meus irmãos, e por ultimo ajudou minha mãe a subir, voltou a cabine, bateu com força umas três a quatro vezes a porta pendente, até que ela rendeu-se a sua vontade e fingiu que fechou para parar de apanhar.
Horas depois, lá estava eu sobre asas de ferro que não voavam, mas arrastavam-se sobre estradas mortas. Dias depois, lá estávamos pousando nossos corpos cansados numa rua barulhenta de uma cidade grande, e ali começamos nova vida.
Nem lembro quando mudei de bicho para menino, só sei que todos mudamos, já não tínhamos o medo nos olhos, esse, deu lugar ao deslumbramento que a cidade causa no povo do sertão. Era muita vida ali, tão diferente do cemitério que era àquele nosso lugar.
continua em breve...espero...

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