terça-feira, 30 de janeiro de 2007

"Há uma África em mim"




foto do site http://eudesenholetras.wordpress.com/2008/09/15/a-historia-e-a-cultura-da-africa-e-suas-implicacoes-com-a-cultura-brasileira-na-atualidade/

Há um Saara em mim
Ele vive e se manifesta
Na festa dos ventos que me levam
Nos meus pensamentos
Sou a fartura do pó que voa no vento
E engole as gotas no chão
Beduíno das cáfilas rondando a imensidão

Há tantas savanas em mim
Guardando o selvagem que sou
O mesmo que me devora a carne nua
No império dos sentidos
Onde impera a mãe natureza
Sobre a destreza
Dos ávidos e vorazes instintos

Há tanta fome em mim
Nas sombras que perambulam
Mastigando migalhas
Que estalam nos dentes rarefeitos
E são devoradas pela fome animal
Deixando silhuetas de olhos arregalados
Estendidos no chão
Vestes de osso e pele abandonados

Mas, há tanta vida em mim
Apesar do choro das minhas mães
E dos vírus que andam imunes
Desafiando-me com a cumplicidade do mundo
Que parece temer ser contaminado
Ao me estender a mão.

Não, não temas mundo
Meu sorriso é fecundo
E um dia, ainda vamos bailar
Sob os sons dos tambores da África

Um dia, a cor escura da minha mão
Poderá a ti ser estendida
Quem sabe, para evitar que se afogues
No oceano da indiferença
E assim possamos juntos ter sobrevida

© Varley

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sábado, 27 de janeiro de 2007

“Versos derramados”

Entre os versos derramados no papel
Algumas gotas do vinho que meus olhos verteram
A taça em pedaços pelo chão
A garrafa de Cabernet Sauvignon vazia
O silêncio perturbando-me os ouvidos
A razão embriagada balbuciando dor
Enquanto minha alma vomitava muito da saudade
Que venho bebendo desde que partiste

© Varley

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

"A noite"

A noite soletrada entre as horas
No silêncio de palavras caladas
Escondendo a algazarra de outrora
Em que corpos se davam no romper das madrugadas

Os suores dos corpos que ardiam
O estalar dos beijos que no ar tiniam
O vento que soprava paixão

Línguas se provando
Corpos se povoando
Sob o amparo tórrido da ilusão

A noite agora é noite apenas
O açoite das horas e o silenciar das palavras amenas
Nada dizem ao coração

A noite agora é apenas noite
E o passar das horas lentamente um açoite
Sob o chicote incauto dessa solidão

® Varley

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sexta-feira, 17 de novembro de 2006

“Pernilongos ousados”

Saboreando uma sombra
Numa rede a varanda
Deitado na minha preguiça
Sonhando e tendo esperança
Lendo Mia Couto e toda a cor da palavra
Tão cheia de encanto
Que nos “Moçambiques” tantos da África distante
Planta letras nas Savanas e sonhos pelo mundo
Fazendo germinar vidas sob a forma de ilusão
Vou completando meu dia
Na noite que se anuncia
Sob a luz da poesia de Drummond
Que no afã de amar, ensina-nos com paixão
A ânsia humana de se dar
Sem ter medo da desilusão.
E no cair da madrugada fria
Deito a poesia sobre os lençóis alvos
Que me protegem dos pernilongos ousados
Que vasculham uma brecha para sugar meu sangue,
Sem perceberem o risco que correm
De também se apaixonar

© Varley
do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, vol. 28

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quarta-feira, 15 de novembro de 2006

"Beija-me"

.
Beija-me,
O beijo sensual, lascivo,
O beijo vivo
Nos meus lábios mortos
De saudade.

Beija-me,
O beijo que me deixará cativo,
O beijo atrativo
Dos instintos tortos
De vaidade.

Beija-me,
O beijo que me encanta tanto,
O beijo acalanto,
Para por fim ao meu cansaço
Por esperar.

Beija-me,
O beijo que preciso,
O beijo paraíso,
Para que me seja um regaço
Esse teu beijar.

Beija-me,
Assim, de qualquer maneira,
E faz-se a primeira
Nos meus lábios imaturos
E cheios de desejos.

Beija-me,
Assim, como quer que queira
O que importa é que será a derradeira
Nos meus lábios inseguros
Sem teus beijos.

© Varley
do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, vol. 32

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"Pedaços"

.
O dia vaza nas horas rastejantes
A noite chega trazendo um ardente desejo
Eu nos teus braços amantes
Tua boca na minha boca, doce beijo.

A noite chega tangendo incertezas
No véu das horas que no vento se vão
Você nos meus braços completando a beleza
Das horas que passam marcando a ilusão

A madrugada se esvai lentamente
No vão das horas que se vão passando
Eu nos teus braços atentamente
Querendo gritar ao mundo que estou te amando

O dia chega diluindo verdades
Em mim um desespero se apossa ligeiro
Agora as horas me trazem saudade
Daquelas horas em que te amei por inteiro

Agora, sozinho e sem tempo
Sem dia, sem noite, sem hora sequer
Sou o que resta de um pensamento
Que trouxe para meus braços tão furtiva mulher

Agora, sem amor, sem nexo, sem sexo
Com toda a contradição
Sou do desamor o reflexo
Do espelho que em mim refletiu desilusão

Agora, no meio de um pranto
Que não serve sequer de acalanto
Ou me trás qualquer feliz sensação

Sou apenas fera ferida
Algo que vive sem ter vida
Respirando o ar fatal da solidão

Sou apenas espelho quebrado
Estilhaçado
Dividindo em pedaços meu coração


© Varley

do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, vol. 33



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"Na parede da memória"


Calara-se a suavidade de sua voz cansada
Quando a idade já lhe pesava tanto
E os anos, no vão do tempo que se perdiam na memória
Passaram por ela escrevendo nos dias
Uma rica e bela história

As faces ressequidas e tão açoitadas pelo chicote do tempo
As mãos vivas a todo momento
Davam sinais de inquietude
E seus passos lentos que duravam séculos
Testavam-me a paciência tão escassa

Na solidão de seus últimos anos
Vivia a ruminar palavras mudas
E vez por outra vazavam no ar sons "criptografados"
Ah! Como eu fazia força para entendê-la
Ao menos uma palavra

O seu olhar pacifico me acarinhava tanto
E dizia-me de um amor que ela nutria por mim.
Eu sentia esse amor como sentia o silencioso calor do sol
Das manhãs de todos os dias

Ah! Como são eternas aquelas manhãs em mim
Quando eu, envolto na minha ingenuidade infantil
Vivia a admirá-la de longe, e perguntar-me
Para onde ela tanto olhava ?
E o que ela tanto via lá ?

Hoje, na mesma varanda que ela sentava-se todas as manhãs,
Há apenas a sua cadeira velha a emoldurar a sua ausência,
E em mim uma saudade que emoldura sua presença pacifica e enigmática,
Pintada na minha memória como se fosse
Um quadro de Da Vinci

© Varley
do livro Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos, Vol. 31


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"Noutras bocas, noutros corpos."


foto encontrada na internet, não sei quem é o autor da foto acima
.
Noutras bocas,
Noutros corpos
Buscando em vão
No vão das almas
A tua.

E vou a insinuar-me
Pela vastidão da carne nua
Suando e gozando o prazer
Sem méritos,
No descrédito das ruas.

Noutras bocas,
Noutros corpos,
Em vão entrego-me.

E vou vivendo a ilusão
De ser feliz
Depois do adeus.

Noutras bocas
Que não são a tua,
Noutros corpos
Que não são o teu.

© Varley

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